Nei Lopes
12/09/07
- Dia desses, relaxando da labuta, resolvemos no Lote
ouvir uns discos desses de requebrar o esqueleto, desses
que confirmam que nossos Deuses africanos dançam.
E como dançam!
Sacamos
então, lá da estante, discos com “muito
balanço” e “pouco conteúdo”,
incluindo aí muita guaracha, muito són,
muito suingue, muito rhythm & blues, muita batucada,
e, entre esses, uns disquinhos relançados do
polêmico Wilson Simonal, naquela do patropi e
da pilantragem. Foi aí que, ouvindo, sacando
as idéias, analisando os arranjos, o clima e
lembrando das pessoas envolvidas, nos veio à
mente a seguinte pergunta:
Quem
foi realmente o maestro Erlon Chaves? Por que morreu
tão cedo, aos 41 anos, depois de ser consagrado
como regente e ótimo arranjador de música
popular; presidente do júri internacional V FIC
(Festival Internacional da Canção); de
“comer mocotó”; de “tirar altas
chinfras”, cheio de “balanço e de
veneno”; de transmitir aquela imagem bacana e
auto-suficiente... e depois ser taxado de “crioulo
nojento”, que “só gostava de loura”,
que “não se enxergava” e “nem
sabia o seu lugar”. E, afinal, de que morreu Erlon
Chaves?
Nascido
na capital paulista em 1933, Erlon foi – segundo
o Cravo Albin – regente, arranjador, pianista,
vibrafonista, compositor e cantor. Em 1965, depois de
ter composto para a Tv Excelsior uma sinfonia que se
tornou tema de abertura da emissora, mudou-se para o
Rio, onde foi diretor musical da TV Rio e um dos idealizadores
do I Festival Internacional da Canção
em 1966. Até que chegou a quinta edição
do famoso festival, em plena ditadura de Garrastazu
Médici. E aqui passamos a palavra ao amigo Zuza
Homem de Mello, através das páginas de
seu primoroso livro A Era dos Festivais: uma parábola
(Editora 34).
Para
a apresentação de “Eu Também
Quero Mocotó” , na final de 25 de outubro
de 1970, Erlon resolveu incrementar ainda mais o happening,
que já ocorrera na apresentação
classificatória da música, quando sua
Banda Veneno, somando 40 pessoas entre cantores e músicos
(eta, banda larga!), fez platéia e jurados dançarem
ao som da canção, feita mesmo pra dançar,
só à base de riffs dos metais, ritmo de
boogaloo (a moda black de então) . E aí
anunciou, segundo Zuza: “Agora vamos fazer um
numero quente, eu sendo beijado por lindas garotas.
É como se eu fosse beijado por todas aqui presentes”.
“Na
platéia foi uma vaia só. Nos lares, algumas
esposas brancas engoliram em seco, ofendidíssimas,
ao lado dos maridos”. E o happening rolou.
Só
que, segundo nosso amigo Zuza, “o espetáculo
de um negro sendo beijado por loiras no encerramento
do V FIC foi demais para os padrões conservadores
da época, e Erlon Chaves foi levado, dias depois,
para um interrogatório na Censura Federal”,
ao qual se seguiu a prisão, segundo consta, pela
influência de esposas de alguns generais da Ditadura,
ficando o músico, depois de libertado, proibido
de exercer suas atividades profissionais em, todo o
território nacional por 30 dias.
No
caldo grosso do “Mocotó”, Erlon,
acuado, limitou-se ao seu trabalho de arranjador –
da mesma forma que Toni Tornado, pela BR-3 apresentada
no mesmo certame, foi “convidado a sair do país”.
E Wilson Simonal, seu parceiro e amigo, acabou acusado
de delator em 1972, comendo a partir daí o mocotó
que a Ditadura azedou.
Apesar
do relativo sucesso dos discos com repertorio internacional
da Banda Veneno, lançados de 1972 a 1974, a carreira
de Erlon Chaves acabava ali, naquele festival que, segundo
o nunca assaz citado Zuza, “deixou um rastro de
racismo, uma marca de preconceito contra artistas da
raça negra, aquela que contribuiu para a música
brasileira, como também para a cubana e a norte-americana,
com o elemento mais proeminente de seu caráter,
o ritmo”.
Em
14 de novembro de 1974, Erlon Chaves, que transmitia
a todos nós com seu talento, charme, sorriso
e simpatia aquela autoconfiança que a nós
todos ainda nos faltava, enfartou, quando olhava uns
discos de jazz numa loja da zona sul, e morreu. No ato.
Será
que morreu de seu próprio “veneno”?
Este veneno de que nos faz querer também comer
o “mocotó” dos espaços de
excelência, das instâncias do poder, do
conforto material, do acesso ao saber, do êxito,
do respeito enfim!? Ou será que morreu porque
era um “crioulo metido e pilantra”, que
“não sabia seu lugar”, só
“gostava de mulher branca” e “carro
do ano”; que, de repente, quem sabe, queria até
ver seus filhos – absurdo! – entrando pra
uma boa faculdade ?!...
Você
sabe?
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