|
|
Entrevista com Soeli Garvão Zakrzeski
01/09/2005.
Aos 27 anos, a pivô Soeli Garvão Zakrzeski ou Êga,
como é conhecida, passa pelo melhor momento de sua carreira. Ela
foi titular da seleção brasileira que conquistou o decampeonato
sul-americano no mês de julho, na Colômbia, e se prepara para
a Copa América – Pré Mundial, de 14 a 18 de setembro,
na República Dominicana. Nascida no interior do Paraná,
Êga chegou a jogar como ala, pois não era tão alta,
mas sempre foi apaixonada pelo trabalho das pivôs. Garra que demonstra
dentro e fora das quadras, superando obstáculos e perdas, como
as mortes da mãe, em 2000, do irmão mais velho, em 2002
e da amiga e armadora Regininha, em 2003). Dificuldades a parte, Ega é
a marca da determinação, alegria e bom humor. Na seleção
brasileira adulta, a jogadora é tricampeã sul-americana
(Peru – 2001, Equador – 2003 e Colômbia – 2005)
e medalha de bronze nos Jogos Pan-Americanos de Santo Domingo (República
Dominicana – 2003). Pelos clubes, foi campeã do Nacional
(Americana – 2003) e quatro vezes do paulista (Ourinhos –
2000 e 2005 e Americana – 2001 e 2003), vice-campeã do Nacional
(Americana – 2002 e 2004) e vice-campeã paulista (Americana
– 2002 e 2004).
Conte
a sua trajetória no basquete. 
Comecei
a jogar na escola, com uns 14 anos, em Pérola do Oeste, interior
do Paraná. Eu não era muito alta e, por isso, jogava como
ala, mas não gostava muito. Quando o técnico não
estava, eu treinava com as pivôs. Cresci mais um pouquinho e consegui
o meu objetivo. Com 16 anos, saí de casa para jogar em Medianeira
(PR), cidade onde nasci. Depois fui para Santa Catarina e joguei em São
Miguel do Oeste, Concórdia e Joinville. Nessa época treinava
com o técnico Sobé, que foi como um pai para mim. Ele é
um dos grandes responsáveis pela minha carreira e a quem eu devo
muito. Em 1999, fui jogar em Ourinhos. Depois atuei em Americana, Celta
de Vigo (Espanha) e retornei a Ourinhos, onde estou pela segunda temporada.
Por
que o apelido Êga?
Ganhei
o apelido da minha mãe quando tinha quatro anos. Êga é
o nome de uma vizinha e grande amiga da nossa família. Quando mudamos
de cidade, minha mãe resolveu me chamar de Êga para homenageá-la.
O apelido pegou mesmo. Eu sempre gostei mais desse nome e hoje muita gente
não sabe que me chamo Soeli.
Qual
a importância da família na sua carreira?
A
família sempre foi fundamental na minha carreira. Minha mãe
foi o meu maior exemplo de vida, garra e determinação. Ela
era minha maior incentivadora, mesmo sendo contra o basquete no começo,
preocupada com a minha segurança, em viver longe de mim etc. Meus
irmãos são os meus maiores fãs. Enfim, a ótima
estrutura familiar que tive me deu a maior força na minha trajetória
pessoal e profissional.
Como
é a pivô Êga?
Minha
maior vantagem é ser dinâmica e ter um jogo diversificado.
Tenho um bom arremesso de média e longa distância e gosto
muito de dar assistência às minhas companheiras. Na Espanha,
por exemplo, o treinador se impressionou muito com a qualidade do meu
passe.
Como
analisa o atual momento de sua carreira? 
Acho
que estou em uma grande fase. Comecei a jogar tarde, não participei
de seleções brasileiras de base. Consegui evoluir e mostrar
meu trabalho aos poucos, mas de forma consistente, ganhando mais confiança
no meu potencial. Hoje estou em um grande time no Brasil (Ourinhos) e
faço uma ótima temporada na seleção. Ser titular,
jogar mais tempo, enfim ajudar para valer o Brasil é o grande objetivo
quando somos convocadas. E depois de muito trabalho, estou conseguindo
colher bons frutos. Mas acho que estou na metade do caminho. Quero ser
uma jogadora ainda mais completa, ajudar mais a minha equipe e jogar uma
Olimpíada, que é o grande sonho de qualquer atleta. Antes
temos o Mundial no Brasil, em 2006, onde também pretendo estar.
Seria maravilhoso jogar o meu primeiro Mundial em casa, para essa torcida
brasileira fantástica.
E
como foi sua experiência na Espanha?
Muito
legal. Joguei as finais do Campeonato Espanhol pelo Celta de Vigo. O que
me impressionou demais foi o nível técnico da competição.
Todos os jogos eram difíceis. Ganhamos do líder, Barcelona
e perdemos do último colocado. É um campeonato super disputado
e emocionante. Estranhei um pouco a maneira mais metódica das européias
jogarem, mas acabei me acostumando, mesmo jogando apenas por três
meses.
Quais
os melhores momentos da sua carreira?
O
meu primeiro título em São Paulo, de campeã paulista
(Ourinhos/2000) e a primeira convocação para a seleção
brasileira no o Sul-Americano do Peru, em 2001. Tinha chegado do Sul há
pouco tempo e foi uma grande surpresa. Outro momento marcante foi o Liga
Mundial de Clubes na Rússia, em 2004, por Americana, depois de
me recuperar da lesão que me tirou da Olimpíada de Atenas.
Fiz um grande campeonato e fui eleita uma das cinco melhores jogadoras
da competição.
E
os piores?
O
mais triste foi a perda da minha mãe, em 2000. Eu estava trabalhando
muito para me firmar no Ourinhos, em São Paulo, e a morte dela
me abalou demais. Logo depois veio a convocação para a seleção
brasileira que me deixou muito feliz. Em 2002, veio a morte do meu irmão
mais velho e em 2003, da armadora Regininha, de Americana, com quem eu
morava e era muito amiga. Outro momento triste foi a lesão que
tive em 2004 e que me tirou da Olimpíada de Atenas. Nunca tive
nenhum problema sério na vida até então e fui ter
logo perto dos Jogos Olímpicos. O interessante é que os
momentos bons e ruins se alternam. Sempre depois de uma perda ou queda,
vieram boas conquistas no meu caminho. A vida é assim mesmo, tem
seus altos e baixos, mas todos te fazem crescer, tanto pessoal com profissionalmente.
Como
você vê o atual grupo da seleção brasileira?
A
equipe está muito unida. Essa temporada deu uma excelente oportunidade
para a geração mais nova, que tinha menos tempo de quadra
na seleção, como eu. Do banco eu observava o jogo e achava
que as outras atletas e as outras seleções eram bem superiores.
Hoje, participando mais, vejo que temos possibilidade de jogar de igual
para igual sempre respeitando o adversário, mas confiantes no nosso
trabalho e talento. Os jogos na Europa e no Brasil deram grandes resultados
e o grupo evoluiu bastante. É legal ver que a renovação
vai sendo feita aos poucos e vamos ganhando experiência e confiança
para poder cada vez mais ajudar a seleção no que for preciso.
E
ponto forte desse elenco?
É
o conjunto e a união. A gente joga para a equipe. Analisamos a
melhor bola, fazendo o que cada jogo pede, sem individualismos. O grupo
está forte e unido. Quando chega alguma jogadora no meio da preparação,
ela se encaixa muito bem porque já encontra um clima de união
e alegria. Tecnicamente, melhoramos em vários aspectos, principalmente
na defesa, que gera um ataque mais consistente.
Quais
suas expectativas para a Copa América?
As
melhores possíveis. Fizemos uma ótima preparação
e o grupo vai mostrar o seu valor na República Dominicana. Por
mais que a gente treine e faça amistosos, é na hora da competição
que realmente vemos o trabalho que foi realizado nos últimos meses.
Vamos mostrar a força e o talento dessa geração que
está se firmando na seleção, como foi no Sul-Americano.
E
os adversários mais fortes?
Cuba
e Canadá. Enfrentamos as duas seleções e observamos
bem como jogam. Cuba sempre impressiona pela determinação.
Tradicionalmente, fazem um jogo de contato muito forte e estão
com um conjunto muito bom. O Canadá sempre deu trabalho jogando
contra o Brasil. Estão fazendo uma renovação bem
feita e evoluíram bastante, principalmente nas bolas de média
e longa distância.
Deixe
uma mensagem para os iniciantes do basquete.
Determinação
acima de tudo. Temos que acreditar sempre nos nossos sonhos e trabalhar
para que se realizem. As dificuldades e quedas fazem a gente crescer e
aprender cada vez mais.
Alto
da página
|